PEDRO MARIANO | Em Algum Lugar Da Noruega


Hoje vou dar uma pausa em nossos sons brasileiros e trazer um som que vem de um lugar muito interessante. Lugar este que exportou muita música para o mundo, principalmente no Heavy Metal, e que agora mostra uma sonoridade das mais modernas e contemporâneas da atualidade, na minha opinião. Falo da Noruega.
A Noruega, vale lembrar, vem liderando os índices de IDH no mundo. Tem impostos altíssimos e coisas simples como um maço de cigarro ou uma cerveja custam muito caro, e até mesmo o passe de trem ou ônibus tem o valor salgado. Só que o mais interessante de tudo isso é que o povo norueguês está entre os povos que mais estão satisfeitos com seus governos. Afinal, tudo o que se paga o Estado dá a sua contrapartida. Como, por exemplo, a licença maternidade é de 9 meses, onde o pai é obrigado a tirar 3 meses e tudo custeado pelo governo.
Seria este o ambiente favorável para o surgimento de artistas musicais tão interessantes? Não sei bem ao certo, porque com temperaturas baixas durante a maior parte do ano, chuvas constantes e com homens que não têm o costume de pagarem a bebida para uma mulher; não seriam características compatíveis com a leveza da criação musical.
O que ocorre é que, ultimamente, os artistas
mais interessantes que descobri, vieram de lá. E hoje eu vou falar de um deles: Jarle Bernhoft, ou simplesmente Bern/hoft.


Nascido aos 27 dias de Junho do ano de 1976, em Nittedal, esse multi-instrumentista tem um talento de tirar o chapéu. Seu primeiro álbum Ceramik City Chronicles, de 2008 já mostrava a que vinha. Com influências que vão do FOLK ao R&B, mistura tudo isso com uma sonoridade contemporânea bem européia. Foi uma canção deste disco que me fez notar este músico singular: “Sunday”.


Certa vez eu estava viajando em turnê, quando um de meus músicos estava comentando comigo sobre um determinado equipamento chamado LOOPSTATION. Este equipamento permite que você grave trechos musicais feitos a partir de um instrumento ou a voz, e os sobreponha como em um estúdio. Ou seja, você pode gravar um trecho do violão e colocá-lo em LOOPING e ele vai ficar repetindo aquele trecho sem parar. Em seguida você grava um contra-baixo e logo depois pode cantar juntamente com os instrumentos como se fosse um grupo musical.

Como este equipamento só grava trechos pequenos, há de se ter criatividade e muita destreza, para ir “construindo” a música a partir destes trechos. Foi assim que eu vi Bern/hoft pela primeira vez, sentado em um pequeno palco com dois violões, um piano, dois microfones e dois LOOPSTATIONS. Ele começa a apertar os pedais, estalar os dedos, toca um trecho no violão, mais pedais, pega outro violão e começa a tocar a harmonia da música. Mais pedais, outra linha de violão e de repente ele canta e a voz do cara é incrível! A música? Mágica.
Neste álbum, Bern/hoft deixa de lado o lado “one-man band” e produz 12 faixas muito interessantes. Quando as canções não se mostram vigorosas ou intensas, surgem arranjos “fora da caixa” que acabam compensando a audição. Destaco “Stay With Me”, “C’mon And Talk”, “Prophet” e “Buzz Aldrin”. De quebra, ainda tem um cover de “Shout” do Tears For Fears.

Como músico, é muito talentoso. Tem bom gosto ao produzir suas faixas e compõe muito bem. Em alguns momentos você pode se lembrar de Prince ou James Brown, mas em vários momentos você irá ouvir grandes melodias folks e rock vindas de algum pub Londrino. A escolha dos timbres e das cores em seus arranjos são bem coerentes e trazem um sopro de novidade em um cenário musical já bastante saturado.
Em 2014 ele lança “Islander”, com uma proposta bem interessante em termos comerciais. Juntamente com o álbum é lançado um aplicativo para Iphone e Ipad onde você pode mixar as músicas do disco como quiser. Separar instrumentos da voz, mudar timbres e equalizações. Interessante! Com esse disco ele recebe a indicação ao Grammy na categoria “Melhor Disco R&B”. Este disco, infelizmente só está disponível nos Estados Unidos, mas pode ser ouvido em alguns sites de streaming, ou no Youtube.